Vozes dos Trilhos: Nádia de Oliveira e a transformação sustentável na cadeia do cacau

Vozes dos Trilhos: Nádia de Oliveira e a transformação sustentável na cadeia do cacau

O Trilhos do Desenvolvimento é um projeto da BAMIN que tem como principal objetivo engajar jovens das cidades ao longo da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (FIOL 1) na busca por soluções inovadoras e sustentáveis para os desafios socioambientais locais. Divididos entre os quatro lotes por onde a ferrovia irá passar, o Trilhos do Desenvolvimento oferece mentorias, palestras e ferramentas para que os participantes identifiquem problemas de suas comunidades e proponham iniciativas que gerem resultados positivos em suas comunidades. Com temas que vão desde a cadeia produtiva do cacau até a escassez de água, o Trilhos do Desenvolvimento busca fortalecer o protagonismo juvenil e promover mudanças sustentáveis nas regiões participantes.

Na série Vozes dos Trilhos, iremos contar as histórias inspiradoras dos jovens participantes do projeto Trilhos do Desenvolvimento, destacando suas trajetórias, desafios e propostas para transformar suas comunidades. A cada edição, vamos mergulhar na experiência de jovens que estão fazendo a diferença em suas regiões. A primeira história é a de Nádia de Oliveira Sena, de 25 anos, formada em agroecologia, que lidera iniciativas sustentáveis no Lote 1, na cidade de Uruçuca (BA), focadas na cadeia produtiva do cacau.

Nádia chegou ao projeto Trilhos do Desenvolvimento com um conhecimento técnico já consolidado na área de agroecologia e uma bagagem prática construída em sua trajetória na agricultura familiar e na extensão rural. Formada pelo Instituto Federal Baiano em 2019, ela acumula três anos de experiência em projetos que promovem a meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão) como uma alternativa de renda para os cacauicultores, especialmente por garantir um fluxo de renda ao longo do ano todo, considerando a sazonalidade do cacau.

No Trilhos do Desenvolvimento, Nádia integra o “Grupo Verde”, responsável por propor soluções para os desafios locais enfrentados pelos agricultores de Uruçuca. A proposta do grupo é inovadora na região: criar um aplicativo que funcione como uma comunidade técnica, integrando agricultores e especialistas para atender às emergências de campo.

O aplicativo terá duas interfaces: uma voltada para o produtor, que poderá identificar problemas nas plantas com o uso de inteligência artificial, e outra para o técnico, que receberá demandas e poderá oferecer suporte diretamente ao campo. “Além disso, será uma fonte de pesquisa e auxílio para técnicos recém-formados, servindo como uma ferramenta segura para ajudar a lidar de forma mais assertiva com as questões do campo”, explica Nádia. A proposta é que o aplicativo seja gratuito e funcione offline, conectando agricultores a técnicos disponíveis em um raio de até 150 quilômetros. “O grande diferencial é que ele foi pensado para o sistema Cabruca, que consiste no cultivo de cacaueiros dentro de uma área de bioma preservado, onde as árvores nativas fornecem sombra aos cacaueiros, com foco nos pequenos produtores. Além disso, o aplicativo é acessível até para pessoas com dificuldades de leitura”, destaca.

Para Nádia, um dos maiores desafios enfrentados pela cadeia produtiva do cacau é a resistência dos produtores mais antigos em adotar práticas mais sustentáveis e socialmente justas. “Quando você sugere pensar mais na ergonomia do trabalhador ou nas condições de trabalho, há uma certa resistência. Muitos produtores ainda pensam apenas em plantar o máximo de pés de cacau possível para vender mais, sem considerar os impactos”, relata.

No entanto, Nádia vê uma grande oportunidade na juventude local e nas novas tecnologias. “Os jovens já estão aplicando essas novas técnicas, e os resultados estão sendo percebidos na prática. Isso é uma grande oportunidade para transformar o setor”, diz. Para ela, a tecnologia não se limita a celulares e internet, mas inclui qualquer inovação que possa facilitar o trabalho no campo, como novos maquinários ou técnicas de produção mais eficientes.

O que fica claro na fala de Nádia é que o projeto Trilhos do Desenvolvimento vai além de criar soluções pontuais: ele está plantando as sementes para o surgimento de uma nova geração de líderes no campo, jovens que, como ela, estão comprometidos com a sustentabilidade e a justiça social. “Nosso desafio é garantir que as próximas gerações desenvolvam pensamentos críticos e busquem soluções, em vez de simplesmente consumirem algo pronto”, afirma, ressaltando que a criatividade e o conhecimento são as chaves para superar as barreiras que ainda existem no setor agrícola.

Com a participação de jovens como Nádia, o projeto Trilhos do Desenvolvimento se consolida como um catalisador de mudanças, não só para o sistema produtivo do cacau, mas para as comunidades que dependem dele. As soluções criadas aqui têm o potencial de transformar realidades, melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores rurais e promover uma agricultura mais sustentável e inclusiva. E, sem dúvida, Nádia de Oliveira é uma dessas Vozes dos Trilhos, que, com determinação e visão, está ajudando a trilhar um novo caminho para o futuro do cacau em Uruçuca.


Publicado em: 20/09/2024